A influência de um vendedor já não se limita às conversas realizadas dentro de uma loja, pois com as redes sociais, profissionais de vendas podem apresentar produtos, esclarecer dúvidas, construir autoridade e iniciar relacionamentos com consumidores antes mesmo do primeiro contato comercial, como os vendedores criadores de conteúdo fazem,
Foi a partir dessa transformação que a Volvo Cars Brasil criou o Volvo Social Club, programa que orienta e incentiva os vendedores de sua rede de concessionárias a produzirem conteúdos para as próprias redes sociais. Em vez de depender apenas dos canais institucionais, a marca passou a contar com profissionais que conhecem os veículos, convivem diariamente com as dúvidas dos consumidores e conseguem explicar cada funcionalidade de maneira mais próxima e autêntica.
Transformar vendedores em criadores de conteúdo, porém, exige mais do que entregar um celular e pedir que a equipe grave vídeos, mas também é necessário encontrar um equilíbrio entre liberdade criativa e controle da marca, capacitar os participantes, oferecer direcionamentos claros e adaptar a produção à rotina comercial. Também é preciso reconhecer que nem todos os profissionais terão o mesmo perfil ou nível de engajamento.
Neste artigo, reunimos os principais insights compartilhados por Felipe Yagi, Diretor de Marketing, Customer Experience e Comunicações da Volvo, durante sua participação no Raise The Bar. Você entenderá como o Volvo Social Club funciona, quais desafios surgiram durante sua implementação e o que outras empresas podem aprender com uma estratégia que transforma a força de vendas em um novo canal de atração, relacionamento e geração de oportunidades.
O que é o Volvo Social Club
O Volvo Social Club é um programa criado pela Volvo Cars Brasil para transformar os vendedores de sua rede de concessionárias em criadores de conteúdo. A iniciativa funciona como uma estratégia de social selling, na qual os profissionais passam a utilizar as próprias redes sociais para apresentar produtos, esclarecer dúvidas e aproximar a marca dos consumidores.
O programa envolve uma rede de 52 concessionárias e cerca de 250 vendedores, mas como esses profissionais não são funcionários diretos da montadora, mas das empresas responsáveis pela distribuição e venda dos veículos, a Volvo precisou criar uma estrutura capaz de orientar a comunicação de forma padronizada, sem eliminar a identidade de cada participante.
Na prática, o Volvo Social Club conecta o conhecimento dos vendedores sobre os veículos às prioridades de comunicação da marca. A empresa disponibiliza temas, informações importantes, sugestões de formatos e orientações para a produção. A partir disso, os profissionais criam conteúdos para seus próprios perfis e, em alguns casos, para os canais das concessionárias.
Mais do que ampliar o alcance das campanhas institucionais, a proposta é aproveitar a proximidade que o vendedor já possui com o consumidor, afinal, é ele quem conhece as dúvidas mais recorrentes, acompanha as objeções durante a negociação e consegue demonstrar funcionalidades de maneira prática e acessível.
Por que a Volvo criou o programa
A Volvo criou o programa de vendedores criadores de conteúdo ao perceber duas transformações que já estavam acontecendo no mercado: a mudança no comportamento dos consumidores e a digitalização da atuação comercial.
Antes, o vendedor dependia principalmente do fluxo de pessoas na concessionária, dos contatos encaminhados pela empresa ou de uma carteira construída ao longo do tempo, porém com as redes sociais, ele passou a ter a possibilidade de atrair consumidores, desenvolver relacionamentos e gerar novas conversas comerciais por conta própria.
Além disso, parte dos vendedores já produzia conteúdos de maneira espontânea, portanto o desafio não era iniciar esse movimento, mas organizá-lo. Sem uma orientação comum, cada profissional publicava temas, formatos e informações diferentes, o que dificultava a integração com a estratégia da montadora.
O Volvo Social Club surgiu, portanto, para estruturar uma prática que já existia. A marca passou a oferecer direcionamento, recursos e apoio para que os conteúdos contribuíssem tanto para o desenvolvimento dos vendedores quanto para a amplificação das mensagens institucionais.
A iniciativa também reconhece que o consumidor atual dificilmente chega a uma concessionária sem realizar pesquisas anteriores. Ele consulta redes sociais, assiste a demonstrações, compara modelos e procura opiniões antes de conversar com um vendedor. Estar presente nesses pontos de contato tornou-se essencial para participar da decisão de compra desde as etapas iniciais.
Como a plataforma funciona
A estratégia é organizada por meio de uma plataforma na qual a Volvo disponibiliza tarefas de conteúdo para os vendedores, com isso, cada atividade apresenta um tema, os principais atributos que devem ser comunicados e uma orientação sobre o formato mais indicado.
Em uma campanha sobre um veículo, por exemplo, a marca pode sugerir que o vendedor produza um vídeo demonstrando uma funcionalidade específica, faça uma apresentação ao redor do carro ou mostre detalhes do painel. O profissional recebe um briefing, mas não um roteiro fechado. Assim, pode adaptar a linguagem, a apresentação e o estilo ao próprio perfil.
Depois de produzir o material, o vendedor envia o conteúdo para validação. Essa etapa não tem como objetivo exigir uma produção profissional ou impedir a publicação por questões estéticas. A análise verifica principalmente se existem informações incorretas, dados que precisam ser ajustados ou riscos para a comunicação da marca.
As tarefas também fazem parte de um sistema de gamificação. Ao concluir as atividades, os participantes recebem pontos que podem ser incorporados às campanhas de incentivo comercial da empresa. Dessa forma, a criação de conteúdo deixa de depender apenas da iniciativa individual e passa a integrar uma estrutura de reconhecimento mais ampla.
A plataforma permite, ainda, que a Volvo organize as mensagens que deseja amplificar em determinados períodos, conectando a comunicação dos vendedores às campanhas realizadas pela montadora, por influenciadores e pelos veículos de imprensa.
Por que os vendedores criadores de conteúdo se tornaram canais de atração
Durante muito tempo, a atuação do vendedor começava quando o consumidor entrava na loja, preenchia um formulário ou respondia a uma abordagem comercial. As redes sociais ampliaram esse papel. Agora, o profissional pode participar da jornada de compra antes mesmo de o cliente demonstrar uma intenção clara.
Ao publicar demonstrações, comparações, explicações e respostas para dúvidas recorrentes, o vendedor passa a atrair pessoas interessadas no produto. O conteúdo gera familiaridade, reduz incertezas e cria oportunidades para que uma conversa comercial seja iniciada por mensagem, WhatsApp ou visita à concessionária.
Esse movimento é especialmente relevante em compras que exigem pesquisa e consideração. Antes de visitar uma loja, o consumidor pode assistir a diferentes vídeos, comparar modelos, entender funcionalidades e acompanhar profissionais que transmitem confiança. Nesse cenário, o vendedor deixa de ser apenas o responsável pela conversão e passa a atuar também na descoberta e na educação do público.
O case da Volvo mostra que a presença digital da força de vendas pode complementar os canais institucionais. Enquanto a marca comunica seus valores e campanhas em escala, o vendedor traduz essas mensagens para situações mais próximas da realidade do consumidor. Assim, a empresa amplia o alcance sem abrir mão da interação humana que influencia decisões de compra mais complexas.
A mudança no comportamento do consumidor
O consumidor atual chega ao contato comercial mais informado, antes de procurar um vendedor, ele pesquisa características do produto, assiste a avaliações, consulta opiniões e busca respostas para dúvidas específicas nas redes sociais.
No mercado automotivo, essa mudança é ainda mais perceptível. A visita à concessionária raramente representa o início da jornada. Quando o consumidor entra no showroom, normalmente já conhece parte dos modelos, avaliou alternativas e formou algumas percepções sobre a marca.
Por isso, esperar que toda a comunicação aconteça apenas no ponto de venda limita a capacidade de influência da empresa. Os conteúdos publicados pelos vendedores permitem participar da fase de pesquisa, quando o consumidor ainda está construindo seus critérios de decisão.
Além de apresentar o produto, esses materiais ajudam a tornar informações técnicas mais compreensíveis. Um vídeo curto mostrando o funcionamento do painel, o carregamento de um veículo elétrico ou um recurso de conectividade pode responder de maneira mais direta do que um material institucional.
Essa proximidade também reduz a distância entre pesquisa e contato comercial. Quando o consumidor acompanha um profissional que demonstra conhecimento e clareza, tende a se sentir mais seguro para iniciar uma conversa. O conteúdo, portanto, não substitui o atendimento. Ele prepara o terreno para que o relacionamento comercial comece com mais confiança.
O vendedor como extensão da marca
Ao transformar vendedores em criadores de conteúdo, a Volvo passou a contar com uma rede de profissionais capazes de amplificar suas mensagens. Cada vendedor se tornou um novo ponto de contato entre a empresa e o consumidor, utilizando uma linguagem mais pessoal e próxima do cotidiano de compra.
Isso não significa que o profissional apenas repita campanhas institucionais. Seu valor está justamente em traduzir os atributos da marca a partir da experiência prática. Enquanto uma peça publicitária apresenta um veículo de forma ampla, o vendedor pode mostrar um detalhe específico, explicar como determinada funcionalidade opera e relacioná-la às necessidades recebidas durante os atendimentos.
O conhecimento acumulado na ponta também permite identificar temas que nem sempre aparecem como prioridade no planejamento de marketing. Dúvidas recorrentes, objeções e dificuldades de compreensão podem se transformar em conteúdos úteis para outros consumidores.
Essa atuação fortalece tanto a empresa quanto o próprio profissional. A marca ganha alcance e humaniza sua comunicação. Já o vendedor desenvolve autoridade, forma uma audiência e constrói um acervo que pode ser reutilizado em futuras negociações.
Para que essa extensão funcione, entretanto, o profissional precisa compreender que sua comunicação também influencia a percepção da empresa. A liberdade para criar deve estar acompanhada de conhecimento do produto, responsabilidade e alinhamento com os princípios da marca.


